A GRIPEZINHA E OS MARAVILHOSOS FILMES LIXO - Volume 2
COMÉDIAS LIXO DE FAMÍLIA
Então vamos lá, que
promessa é dívida. Dívida ou dúvida? Já jurei muita coisa em vão, mas quem
nunca quebrou uma promessa? O problema é fazer promessas que não condizem com
nossa natureza. “Nunca vou te trair” – sabe o cara que passou 20 anos de
casamento pegando todas e, de repente, faz um juramento desses? E a mulher ainda
acredita, no lugar de dar um pé na bunda do infeliz! Tem outras: “quando não te
amar mais eu falo na mesma hora”, “nunca mais tomo um porre desses” ou “prometo
manter, defender e cumprir a Constituição”.
Bem, pra que eu não leve
um pé na bunda dos raros leitores deste blog, começo a cumprir a minha promessa
apresentando duas comédias lixo de família. Bora lá, começando por uma
pincelada sobre o gênero, como combinado.
Sobre o Gênero: Comédias de Família.
Primeira informação: comédia
é um gênero dificílimo de fazer. Fiz teatro boa parte da vida, escrevendo e
dirigindo. E pra uma piada funcionar, olha, dá um trabalho danado. O tempo entre
a preparação e o golpe final tem que ser exato: um segundo a mais ou a menos, e
ninguém ri. Uma expressão inadequada pode destruir a piada e um olhar no momento exato dispara o riso da platéia. Por isso, quando
você ri muito numa comédia, no cinema ou no teatro, tenha certeza: os caras
trabalharam muito. E muito bem.
Mas comédia tem um problema: tem que saber assistir. Tenho uma
amiga que não acha a menor graça em nenhuma comédia e não entende como as
pessoas riem daquilo. Trata-se da suspensão do descrédito,
comportamento básico diante de qualquer filme. No gênero ação, se você se
incomodar com o herói passar na frente de cinco bandidos disparando
metralhadoras e nenhum tiro
pegar nele, você não consegue ver o filme de boas. Então,
você decide acreditar. Uns filmes exigem mais isso do que outros. A comédia exige
uma suspensão de descrédito maior que outros gêneros – em dramas e romances acontecem coisas mais próximas da nossa vida. Mas é muito raro a gente tomar um porre, jogar o colchão pela janela do
hotel, tirar o próprio dente com um alicate, roubar um tigre da casa do Mike
Tyson e levar pro nosso banheiro. A comédia exige que a gente “abra os
braços, respire fundo e solte os laços todos desse mundo”, como cantou Walter
Franco.
Comédias exigem disposição
de espírito para, de repente, rir de uma piada homofóbica do ursinho Ted. Calma
aí: quando rimos de uma piada homofóbica do Ted, não estamos rindo do ‘homo’, mas
do ‘fóbico’ e do ridículo que está passando. Quando o Ted faz merda no trânsito
e se justifica ao outro motorista dizendo que estava tuitando, não rimos porque
aprovamos dirigir tuitando, rimos da ingênua estupidez do ursinho ao achar que
aquela seria uma boa desculpa. Gente, rir é bom!
Mas nem tudo são flores
na vida de Joseph Climber! Nem toda comédia é boa (as dOs Melhores do Mundo são ótimas). Dia desses larguei uma comédia francesa aos 20 minutos
(comédias não têm o direito de demorar tanto tempo pra fazer rir). Mesmo a mais
escapista das comédias, precisa ter roteiro inteligente, ser bem filmada, ter atores
bons e com carisma. Então vamos lá, à primeira comédia ‘lixo’ de família.
FÉRIAS FRUSTRADAS (2015)
Ed Helms é piloto de uma
pequena companhia aérea e pai de uma família meio pra baixo que vive na conta do chá. Logo na primeira cena, a 1 minuto, uma piada ótima com um copiloto
idoso. Ainda antes dos 5, o protagonista fica ao lado do seu antagonista, piloto
de uma companhia maior, na saída do aeroporto, e, sem que fale uma única
palavra, transmite toda sua essência de tolo, ingênuo e bem intencionado. Ainda
antes dos 10 minutos, uma cena engraçadíssima na mesa de jantar com um casal insuportável de
bem sucedidos, quando o pai, exemplo da síndrome do vira-latas, tenta replicar
o modelo dos visitantes enquanto a mãe leva uma conversa hilária com a esposa do
outro. Logo em seguida, o pai conta à família que vão fazer uma
longa viagem para ir a um parque aquático. Ah, a cena em que ele sai com a chave é exemplo do tempo de comédia... E lá vão eles.
Alguns grandes momentos:
– Inversão de expectativa: o irmão mais
novo é quem faz bulling com o outro. E roubam a cena!
– Uso de metalinguagem: o pai explica
por que vai repetir uma viagem feita 30 anos antes com seu pai, mas na real, está
falando do porquê da refilmagem do filme dos anos 80. Ótima sacada.
– A música do Seal que o pai passa o
filme todo tentando fazer com que a família cante com ele – como em todo bom
roteiro, nada é a toa e aquilo vai render uma cena magnífica lá pra frente.
– A cena antológica, música perfeita, em
que eles vão andar de bote numa corredeira com um guia que acaba de receber um
telefonema da namorada terminando o relacionamento. Genial!
– O GPS do carro, sensacional!!!
– Pós piada – refinamento da arte de
fazer comédia: quando uma piada ou ação é suficiente, mas quando ela acaba, uma
nova piada vem de surpresa e a complementa (uma delas é com o GPS)
Só citei alguns momentos, mas creia: o filme não tem barriga
(cenas chatas em que nada acontece) e tem muitas e muitas cenas engraçadas e surpreendentes. Se solta e boa diversão.
OPERAÇÃO CUPIDO (1998)
Clássico, clássico, clássico. Quem já
viu, vale a pena ver de novo. Quem não viu, é sempre tempo. Filme da família misturado com filme de
adolescente misturado com comédia romântica. Já vi incontáveis vezes. O filme
precisa de uma dose extra de suspensão de descrédito: o casal, que acaba de ter
filhas gêmeas, se separa e resolve cada um vai ficar com uma delas e não contar
a elas da existência da irmã. Ok, aceita e relaxa. Elas se encontram aos onze
anos num acampamento de verão, descobrem que são irmãs e resolvem trocar de
pais, sem avisá-los – a que morava com a mãe vai pra casa do pai e vice-versa. O
plano é unir os pais. Vão conseguir? Claro!!! Por que vale a pena
ver?
– Porque a Lindsay Lohan está demais,
faz das irmãs umas sacaninhas inteligentes e fofíssimas, com sotaques e
trejeitos bem diferentes;
– A governanta da casa do pai é divina,
responsável pela cena em que que só uma pedra na frente da TV não chora (se bem
que pedras são muito dissimuladas, vai ver choram escondidas).
– A cruela que quer se casar com o pai
e impedir os planos das meninas funciona muito bem.
– O ‘governanto’ da casa da mãe é ótimo a cada aparição.
– A muito divertida e fantasticamente bem
filmada cena de quase dez minutos, com todos os personagens andando pra lá e pra
num hotel ao som de Glenn Miller é prova de que aquilo ali não é filme lixo nem
aqui nem em lugar nenhum. Cena gostosa e sofisticada.
– Na real, o filme fala que uma família
não pode se separar, que o amor resolve tudo. Vai dizer que não é bom acreditar
e sonhar com isso?
Próxima postagem: filmes de aventuras
inverossímeis com fortões carismáticos que adoro odiar.







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