NÓS NOS ENCONTRAREMOS DE NOVO
Não sei quando, não sei
onde, mas nos encontraremos num dia de sol.
Ao rever a temporada 3 de
Stranger Things, ao fim do episódio 4 uma música dos anos 40 remexeu com meus
alvéolos, pleura e com os neurônios do abdômen. We’ll Meet Again, (link
Spotify) da britânica Vera Lynn. Essa música tem o estranho poder de evocar
sentimentos profundos, principalmente ali quando, a um minuto e meio, entra
aquele monte de vozes em coro e mexe bem lá no fundo da gente, ali onde a alma é
costurada no osso do cóccix pra não se despregar do corpo como a sombra do
Peter vive fazendo com o coitado.
Aí me perguntei, pra lá da meia
noite, na cama: por que é que essa porcaria de música mexe tanto comigo? Bora lá,
pesquisar. Primeiro: é a música da hiper impactante cena final de Doutor Fantástico,
de Stanley Kubrick – o tipo de cena que você nunca vai esquecer na vida – os cogumelos
das bombas atômicas explodindo naquele tétrico e belo espetáculo visual que põe
fim ao mundo e faz a tua cabeça explodir junto. Mas não é só daí que vem a
sensação. Vera, música do álbum The Wall, do Pink Floyd, que cravou
na minha juventude uma personalidade antibélica, cita Vera Lynn e essa mesma música.
Como esquecer aquela voz agônica perguntando “does anybody here remember
Vera Lynn?” Se lembra como ela disse que nos
encontraríamos novamente num dia ensolarado? Vera, Vera, o que
aconteceu com você?
Logo descobri que ela está lá no Spotify.
Botei a música e fui pesquisar. Vera foi uma daquelas cantoras que ia no front
cantar para os soldados. E como cantava... E que músicas... Isso lá na segunda guerra, mil novecentos e quarenta e pouco. Aí vi que uma playlist com músicas dela foi sugerida, em 2017, por quem? Por Vera
Lynn! Não pode ser! Será que ela é uma espécie de Barão, aquele velho de
Otaviano Pambenil que não morre nunca? Fui pesquisar e descobri que, sim, ela estava
viva... até a semana passada. Minha cabeça explodiu. Que perda! Uma mulher
dessas, que cantou na segunda guerra, que se imagina ter morrido antes de a
gente nascer, ainda estava viva e eu não sabia! É como se eu a tivesse deixado
de lado, como se não tivesse cuidado dela. Uma tristeza. Não estive no mesmo
mundo com ela por uma mísera semana.
Pra ferrar ainda mais comigo: sua
morte me evoca um sonho recorrente que tenho desde 2003, em que minha mãe
ainda está viva, controlou a doença e mora normalmente no mesmo apartamento. No sonho, fico com uma mistura de alegria, por ela estar viva, e dor,
por tê-la deixado sozinha por tanto tempo e não ter compartilhado mais momentos
com ela. E acordo péssimo, é claro. Mas com uma ponta de alegria. Que puxe meus
pés pra sempre, que será muito bem-vinda!
Agora em março, na semana em que completava 103 anos, Vera postou no seu canal no Youtube (olha só!!!), por conta da pandemia, um vídeo de 1
minuto em que, canta, lá pelos anos 40, a maravilhosa We’ll Meet Again. Ao
final do vídeo... Fernanda, pega o lenço que você vai chorar ‘até o cu fazer
bico’, como diria minha já citada santa mãezinha... Ao final do vídeo Vera
Lynn, com sua voz sôfrega de 103 anos, fala keep smilling e Keep singing.
Abaixo do vídeo, em informações,
uma mensagem escrita de Vera Lynn: “Estamos enfrentando um momento muito
desafiador e sei que muitas pessoas estão preocupadas com o futuro... apesar
dessas lutas, vimos pessoas se unindo. Eles estão se apoiando, oferecendo
assistência aos idosos e enviando mensagens de apoio e cantando nas ruas. A
música é tão boa para a alma e, durante esses tempos difíceis, todos devemos
ajudar um ao outro a encontrar momentos de alegria...”. Oba! Senti que os
posts anteriores, sobre filmes lixo divertidos, estão alinhados com a mensagem
da dama Vera Lynn.
Boa viagem, Vera Lynn! Ah, e se
cruzar por aí com uma senhora brasileira meio balofinha, cabelos grisalhos como
os teus, com um radinho no ouvido, convide-a a cantar contigo, que ela vai adorar!
“Continue sorrindo
Assim como você sempre faz,
Até que o céu azul leve as nuvens
escuras para longe ”


emocioneiiiii
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