A GRIPEZINHA E OS MARAVILHOSOS FILMES LIXO – VOLUME 3

VOLUME 3 – FILMES ‘LIXO’ DE ADOLESCENTES

“Detesto filme de adolescentes. São sempre a mesma coisa: escola, sexo e molecada fazendo idiotice”.
Tenho uma notícia ao adulto acima e a qualquer outro, inclusive o caríssimo leitor deste blog: você já foi adolescente e era um idiota! “Opa, peraí, eu nunca fui idiota desse jeito!”. Desse jeito não, mas foi idiota de algum outro jeito, certeza. Quanto à ‘mesma coisa’: 98% dos adolescentes passa boa parte do dia na escola e fala de meninas(os) o tempo todo (sexo é o clamor da vida nessa idade, não lembra disso?). Como um filme não retrataria isso? E quanto a fazer idiotice, pra que renegar a idiotice se é a maior característica do adolescente? A maior e a melhor! A idiotice é uma dádiva! Ela surge das bobagens que fazemos por total desapego ao bom senso e veemente recusa à segurança das velhas fórmulas. O adolescente é idiota porque testa tudo o tempo todo e isso é construir o novo, é nascer definitivamente como pessoa, para depois sim amadurecer e adquirir o bom senso e defender quem passa a ser.
E mesmo quem acha que nunca foi adolescente (existe gente assim, creia), qual o problema de se divertir vendo um bom filme de adolescente? Lembre-se de que você nunca foi agente secreto e adora ver 007 e Missão Impossível. Você nunca foi um livreiro de esquina e nem conheceu uma superestrela de Hollywood, mas adora ver o Hugh Grant ficar com a Julia Roberts no final de Notting Hill.
Assim, a condição para se divertir com um bom* filme de adolescente é se lembrar que você era tão ou mais idiota que a garotada que está ali na tela e que você, como eles, estava em transição, tinha sonhos e queria traçar seu caminho, sofria profundamente com quase tudo, mas em compensação se divertia com qualquer bobagem.
* Aqui sim, uma diferença em relação a outros gêneros: um filme de adolescente ruim pode ser mais difícil de ver do que um filme de agente secreto ruim.
Então vamos aos dois filmes de adolescente: o primeiro, mais de meninos, é realmente bom demais, uma aventura deliciosa. O segundo, mais de meninas, é maravilhoso e imperdível. Ambos só vi há pouquíssimo tempo, mas vi 3 vezes cada, pra ter certeza! – os grandes filmes melhoram a cada revisita.
SUPERBAD – É HOJE (2007) – Com Michael Cera e Jonah Hill. Uma espécie de “Depois de Horas”, filme de Martin Scorsese de 1985. Três garotos virgens, meio nerds, inseguros, que nunca vão às festas e vivem sofrendo bulling, resolvem mudar o jogo na noite da última festa do High Scholl. Um deles, ainda mais esquisitinho que os outros, conseguiu uma carteira de identidade falsa, eles decidem comprar bebidas e, dado que isso vale outro, planejam entrar triunfantes na festa. Quem foi meio esquisitinho sabe muito bem: tudo o que pode acontecer de errado com os esquisitinhos, vai acontecer. E acontecem as coisas mais inusitadas, especialmente com um deles, que acaba cruzando o caminho de dois policiais que resolvem ‘adotá-lo’. Assim se passa uma noite insana e quem se diverte é você, porque eles estão ali, passando por poucas e boas, ou melhor, muitas e boas. Apesar das loucuras, seja pela direção, seja pelos ótimos atores (hoje famosos, mas à época jovens e desconhecidos), tudo é filmado com uma perceptível ponta de sensibilidade, delicadeza e amor aos esquisitinhos – ou seja: o filme me toca direitinho.

A MENTIRA (2010), com Emma Stone – Esse vai ser clássico, pode contar. E você não vai querer descobrir isso só depois de anos, vai? É obra de arte. Uma menina, virgem, é claro, conta, meio sem querer, uma mentirinha a uma amiga: tinha transado com uma cara no fim de semana. A mentira se espalha e ela acha melhor não negar, e aí passa ajudar os garotos que não pegam ninguém com mais mentirinhas, a coisa vai crescendo e a menina acaba com fama de vagaba. Aí ela usa sua cultura (foi a única aluna que leu o livro A Letra Escarlate), e, como no livro, prega a letra A, vermelha, em suas roupas. Alguns detalhes o justificam como um filme primoroso:
Quebra da quarta parede – a personagem conversa diretamente conosco. Até descobrirmos que não era exatamente conosco, o efeito já se consumou. O recurso nos torna íntimos, quase cúmplices, o que faz toda a diferença.
Tudo é muito bem filmado, a câmera ajuda a contar a história, como quando ela conta que o boato se espalhou rápido. Num grande plano sequência, o boato corre mesmo, super acelerado, em todos os cantos da escola até voltar nela, que agora está rodeada de gente que já sabe do boato.
Ah, os pais. Não há uma única cena com os pais dela, os ótimos Stanley Tucci e Patrícia Clarkson, em que eles não sejam encantadores e engraçados. Os dois personagens dariam só eles um ótimo filme e podiam fazer um spin off (filme derivado) ou um prequel (filme de origem dos personagens).
Ritmo: ágil e agradável o tempo todo. O filme é dividido em partes pela própria personagem, que nos conta sua história e começando cada parte com títulos sugestivos que nos aguçam a curiosidade. Apesar da agilidade, tudo ruma sem atropelo, sem cansar.
Emma Stone: irresistível! A gente não se cansa dela. Sua interação com o resto do elenco e com a câmera é soberba, lembra (não à toa) Matthew Broderick em Curtindo a Vida Adoidado. Foi indicada a vários prêmios e levou alguns;
John Hughes: e por falar em Curtindo a Vida Adoidado, apesar de todas as referências ao livro de Nathaniel Hawthorne, por sinal, um de meus autores preferidos na adolescência, A Mentira bebe mesmo é na fonte pura e límpida de John Hughes. Não só bebe, como o homenageia explicitamente, citando vários de seus filmes numa cena em que a protagonista expõe, num desabafo contundente, suas emoções e seu deslocamento da realidade que a cerca. Olha isso:  
“Onde foi parar o cavalheirismo? Só existe nos filmes dos anos 80? Quero John Cusak segurando um toca fitas na minha janela. Quero fugir num cortador de grama com Patrick Dempsey. Quero que Jake, de Gatinhas e Gatões, me esperando na saída da igreja. Quero Jud Nelson erguendo o punho porque ele sabe que me conquistou. Só uma vez quero que minha vida seja como um filme dos anos 80, de preferência, com um número musical maravilhoso sem motivo aparente. Mas não. Não. John Hughes não dirigiu a minha vida.”

É ou não é demais? E daí pra frente, e já passamos da metade do filme, ele realmente pega carona no mestre e melhora ainda mais até um fechamento muito inspirado e inspirador. 

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