A GRIPEZINHA E OS MARAVILHOSOS FILMES LIXO - Volume 2


VOLUME 2 – AVENTURAS INVEROSSÍMEIS COM FORTÕES!
Sobre o Gênero:
Quando trabalhava na agência dos Correios de Florianópolis, lidava com muita coisa ao mesmo tempo, problemas de clientes, balancetes, filas, burocracia... Às vezes a cabeça precisava de um refresco, uma atividade que relaxasse a mente. Aí eu ia à expedição, onde o René, um dos caras mais sérios, zelosos e dedicados que conheci na vida, se esfalfava para aplicar o carimbo datador nas milhares de cartas que não paravam de entrar (não havia e-mail, elas chegavam aos montes). Aí pedia que ele descansasse um pouco e ficava lá um tempo extravasando no carimbo, atividade que exigia ao mesmo tempo precisão, rapidez e força. Tinha que bater firme, mas na hora do contato o carimbo tinha que estar perfeitamente paralelo, senão a data saía ilegível. Ficava lá um tempo e saía suado, mas leve e revigorado. O carimbo era meu escapismo. Ainda antes disso, no colégio da UNICAMP, quando a cabeça fervia com matérias como resistência de materiais, eletrônica e que tais, ia chutar uma bola de futsal contra um paredão, com toda força, muitas e muitas vezes – na época, a bola era menor que a de hoje e mais pesada.

Essa é a função das aventuras inverossímeis de fortões, com a vantagem de que ver filmes não sua. Só que para ver esses filmes, é preciso estrar de espírito preparado. Duas dicas para isso:

  Suspensão de seriedade: é preciso não se levar a sério, nem ao filme nem a si mesmo. Só leve a sério o fortão, porque ele se dispõe a dar a vida pra salvar as pessoas. Ao contrário do que muitos pensam, o fortão não é um imbecilzão forte e autoconfiante. Ele sabe que a chance de morrer é alta, mas vai assim mesmo, porque sua missão na vida é se sacrificar pelos outros. O fortão é um tipo de cristo que tomou muito suplemento e que, no lugar de falar por meio de parábolas, fica malhando. Ele é capaz de, munido de apenas um punhalzinho e da sua inabalável coragem, pular para a boca de um tubarão em cuja mandíbula caberia uma casa.
 Simplicidade: Numa cena do filme Annie Hall (veja a cena aí ao lado), Woody Allen está na fila do cinema, irritado com o cara de trás falando em intelectualês com a mulher. Quando o cara cita um filósofo para afirmar algo, Woody não se segura e diz a ele que aquilo é bobagem, que o filósofo não disse aquilo, e o pedante responde que é professor de sei lá o quê e sabe do que está falando. Aí Woody: “ah é? Espera aí” e puxa para a cena o próprio filósofo, que diz que o babaca está errado e que não sabe como o deixam dar aula em faculdade. Woody se dirige à câmera: “ah, se a vida fosse simples assim!” Pois nas aventuras inverossímeis com fortões as coisas se resolvem de forma simples, porque assim deveria ser a vida! Chamemos isso de ‘efeito Annie Hall’, ok?
- Carisma: Não basta ser fortão pra fazer um filme desses ser bom. Tem que ter carisma. Tenta ver um filme do Chuck Norris? Não dá, ele não tem carisma. O mesmo acontece com aquele cabeludo, mistura de chinês com argentino, o Stephen Seagal. 
Então vamos às duas aventuras com fortões recomendadas: 
Terremoto – A Falha de San Andreas: O protagonista é o Dwayne Johnson, conhecido como, olha
só, The Rock! Não é o máximo? Ele é um bombeiro piloto de helicóptero, tem uma filha e sua ex, que ele ainda ama, está com um milionário imbecil. Aí vem um mega terremoto (em aventuras com fortões, tudo é mega, começando pelo diâmetro do bíceps) e ele tem que salvar a ex e a filha, que foi pra San Francisco com o padrasto babaca. Além de bem produzido visualmente, com prédios caindo, represa desabando e ondas gigantes devorando enormes navios, as coisas se resolvem de maneira divertidamente simples. Veja cenas com o mais puro efeito Annie Hall.
  Rachel Weiss, a ex, num restaurante no último andar de um prédio, com a irmã do marido babaca, que também é babaca (nesses filmes, babaquice é genética). A cunhada trata mal a garçonete e olha feio pra Rachel Weiss quando ela atende o celular (é o ex, nosso herói). Aí o restaurante começa a tremer e o fortão, em vôo, diz pra ela subir ao terraço que ele vai resgatá-la. Em meio ao pânico, a cunhada decide não subir, mas descer, abre uma porta e é engolida pelo precipício! A vaca apareceu três minutos, fez malcriação pra garçonete, olhou feio pra Rachel Weiss e, pum, morreu e o fortão salvou a ex. Adorável simplicidade!
 O helicóptero cai num shopping a caminho de San Francisco. Eles sobrevivem, porque o fortão sabe como fazer um helicóptero cair com estilo, aproveitam que estão no shopping, pegam uma
roupa nova e saem correndo pra procurar um avião. Logo acham, é claro, e vão salvar a filha, mas chegando em San Francisco, avião sem combustível, eles pulam de paraquedas e caem suavemente no gramado de um estádio. Saindo de lá, mais um abalo forte, pessoas correndo e o The Rock as orienta a se sentarem junto ao muro do estádio, até leva no colo uma que não podia andar. Toda a estrutura metálica das torres do estádio cai com o abalo, formando um triângulo com as pessoas dentro, a salvo. Uma mulher pergunta ao The Rock como ele sabia. Ele a olha com profundidade e sabedoria e responde: “o triângulo da vida”. Gente, triângulo da vida, como nunca pensei nisso? Sabedoria não é pra qualquer um!
  O padrasto com a filha do The Rock num subsolo, cai uma laje sobre o carro, a menina prende a perna e o padrasto deixa ela lá e sai do prédio pra se salvar. No helicóptero, a mãe recebe ligação da filha, que se salvou e conta que o padrasto a deixou pra trás. Na hora a Rachel Weiss pega o celular e deixa uma mensagem pro babaca, terminando com ele, desliga, olha carinhosa para o The Rock e dá a mão a ele. Pronto, eles voltaram, efeito Annie Hall na veia. Não é maravilhoso?Depois aparece o babaca do padrasto milionário ainda fugindo, a pé, atravessando a ponte, quando um tsunami vira um cargueiro e um contêiner gigantesco cai bem em cima dele. Aqui se faz, aqui se paga, rapidinho. Duplo Annie Hall carpado, véi!!! 

Megatubarão: Com Jason Statham, um dos fortões mais conhecidos, o filme é diversão pura, com muitas boas cenas de ação e até doses de comedia romântica. O herói é uma cara que sabe tudo de mergulhar a zilhões de metros e é chamado para salvar a ex, também mergulhadora. Ele não a ama mais, ela não o ama mais, são só amigos mesmo, tudo fica claro desde o começo que é pra não confundir a cabeça da gente, afinal, não é pra pensar que vemos essas aventuras. Ao salvar a ex, que está numa camada pré-histórica abaixo do que se imaginava fosse o fundo do mar, um buraco se abre e um tubarão pré-histórico sobre e toca o pavor. Por que o filme vale à pena?  
  Porque tem o Jason Statham. Embora não tenha nem metade da capacidade de expressão do The Rock (que já não tem lá muita), ele tem um certo desprezo sarcástico por si mesmo que funciona bem. E tem a porra do carisma, sem o que, como já disse, sem chance.
 Tem uma chinesa linda de doer, boa personagem, boa atriz, separada (caminho livre para nosso
herói, também separado) e com uma filha que tem boas tiradas no filme e logo vai com a cara do herói, fazendo papel de uma cupidinha simpática e inteligente.
  Porque é dirigido pelo Jon Turteltaub, de A Lenda do Tesouro Perdido, 1 e 2. Ou seja, ele sabe como fazer entretenimento ágil, sem barrigas, com tudo andando rápido, com humor ocasional certeiro e na medida.
 O elenco, o grupo de cientistas que está numa estação marítima, tem bons atores, uma pegada moderna, e a química entre eles é boa. Todos são meio estereotipados, é claro, pra facilitar nossa compreensão imediata de quem é quem, afinal, não estamos ali pra uma aula de psicologia e ninguém quer perder tempo em decifrar pessoas.
 Os tubarões são o máximo, existem mesmo, super reais, e atuam muito bem. As cenas são muito bem feitas e impressionam (veja um trechinho de uma cena de ação aí ao lado). Hoje, os animais do cinema devem passar por escola de atores desde filhotes, porque são muito melhores que os antigos. O tubarão do Spielberg, por exemplo, parecia que tinha olhos de morto, tanto que, para justificar, um dos personagens fala que tubarões tem olhos sem vida! Ok, Tubarão é um filmaço (pra mim, é, disparado, o melhor do Spielberg) e nosso delicioso Megatubarão é um filme lixo, mas é um dos melhores em sua categoria e vai te dar quase duas horas de excelente diversão - chupa Spielberg!
Na próxima postagem, duas maravilhosas comédias lixo de adolescentes. Até lá!

Ah, e que já viu os filmes, comente sobre sua experiência por aqui!

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